sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Receita de Família

Os vapores da baunilha dominavam o ambiente somados ao aroma cítrico de laranjas e limões. O calor emanado do forno abraçava os corpos de ambas como uma longínqua carícia maternal. Nina, embriagada pelo clima, desabafou finalmente o que tanto a afligia:
- Ah , será que eu estou fazendo a coisa certa?
Dona Fá, como todos a chamavam desde moça, sem parar de peneirar a farinha com o carinho e leveza de quem não tem pressa, riu largo e gostoso:
- Filha, pára de se preocupar...tem coisa nessa vida que é melhor não pensar, melhor não saber, que a gente tem que só fazer e esperar o resultado.
- Mas , casamento é coisa séria e...
- Ah, sério é o amor filha, isso sim é coisa séria, sério é viver! Eu se tivesse pensado não tinha casado com seu ....até por que fui obrigada ? Você sabe.
- Mas a senhora foi feliz? Porque eu que escolhi casar com o Luís vivo brigando com ele, quem dirá se fosse obrigada. A senhora viu ontem a encrenca que deu por casa das flores da igreja?
- Eu vi e morri de rir...vocês jovens têm a mania de brigar por tudo. Parece até que só têm relacionamentos pra poder discuti-los....se vocês soubessem como tudo é tão fácil. Vocês cobram muito de vocês mesmos e procuram a felicidade nos outros...eu fui feliz com seu porque com ele pude ter tranqüilidade e conforto...e ele me deu uma família. Demorou uns três anos de casada pra eu gostar dele, mas ele gostava de mim, e me respeitava, pra que eu ia querer mais? A gente tem que ser feliz junto com o outro, e não por causa do outro Nina, você entende?
- Mais ou menos , eu gosto tanto dele que tenho medo de perdê-lo...
- Mas tudo nessa vida uma hora se vai! Até os filhos que geramos crescem e buscam outros lugares...mas antes disso nós aproveitamos muito cada minuto com eles, ensinamos e aprendemos, e guardamos no coração tudo de bom que eles nos trazem...até que eles nos dão netos e...
E, então, nesse momento Nina percebeu que Dona Fá trazia os olhos marejados e pensou em tudo o que aquela velha senhora tinha vivido, em tantas lembranças que se escondiam nos vincos de sua face e nos nós de seus dedos...e, finalmente, notou que a vida poderia ser mais leve se tivesse mais coragem de vivê-la...e girando o enfeite dos noivos entre os dedos percebeu que não poderia fazer o mesmo com seu destino....
- Nina, começa agora a parar de pensar na vida! Vem aqui me ajudar a terminar o bolo que só falta o fermento pra ele crescer bem bonito!



Juliana R. Sanchez

3 comentários:

Rafael Guerreiro disse...

Lindo texto! O passado na vó, o presente na noiva e o futuro no fermento...
Só espero ser, um dia, um "vô" de olhos marejados de lembranças...

René Moraes - Ele mesmo. disse...

Parabéns Jú... conseguiu marejar meus olhos.

René Moraes - Ele mesmo. disse...

http://corolariosdeumbeijo.blogspot.com/2007/12/roubo-sutil.html